quarta-feira, julho 22, 2009

quarta-feira, junho 24, 2009

Prêmio Nobel de Física fala sobre a energia sustentável do próximo milênio



( Carlo Rúbia (à esq.) - USP, jun/2009. Foto: RRaele)

Tive o prazer de assistir o colóquio "Tecnologia Energética Sustentável: Um Olhar Prospectivo" com Prof. Dr. Carlo Rúbia - Universidade de Pavia, Itália - sobre geração de energia sustentável. Ele falou das novas tecnologias que virão, em particular sobre as usinas solares de "melted salt" (sal derretido) e das usinas nucleares movidas a Tório, que trabalham o conceito de fissão nuclear em conjunto com um acelerador de partículas. O Resultado? As usinas solares de sal derretido são muito mais baratas e eficientes, com um tempo de implantação de oito meses (já estão funcionando na Espanha) e as usinas nucleares de Tório geram muito menos lixo atômico - além do lixo atômico possuir um decaimento radioativo muito mais rápido.

domingo, junho 14, 2009

Conferência em São Paulo: O etanol brasileiro por Bill Clinton


(fonte: www.ethanolsummit.com.br)

No primeiro dia deste mês (01/06/2009) ocorreu em SãoPaulo o maior evento do setor produtivo de biocombustíveis, o Ethanol Summit 2009. A UNICA - União Nacional da Indústria da Cana-de-Açúcar promoveu uma conferência internacional para discutir o papel do etanol no Brasil e no mundo. Falaram mais de 90 palestrantes durante os três dias de evento. Para encerrar o primeiro dia, a UNICA convidou o ex-presidente norte americano, Bill Clinton, para dar uma pelestra. Eu gravei o audio do pronunciamento. Segue abaixo o audio para quem quiser ouvir o que o Bill Clinton pensa do nosso bom e velho Pró-Ácool.

sábado, abril 11, 2009

A árvore de estrelas


Antônia, que esperava a noite chegar, estava, enfim, diante do seu surgimento. Tinha esse costume. Voltava mais cedo para casa só para assisti-la nascer em sua janela. Em seu quarto, ela via o espetáculo que transformava o dia mole de calor em crepúsculo fresco de brisa agradável. Seu José passara de chapéu de palha do outro lado da rua. Vinha da quitanda. Uma bicicleta, um casal, uma senhora com um embrulho e uma garrafa d'água... Foi nesse clima, nessa atmosfera de paz que só certos lugares do interior são capazes de nos dar que a noite se fez completa.

Antônia também gostava de desenhar com giz de cera as constelações que apareciam no vidro da janela de seu quarto. Assim, acompanhava o movimento dos astros, lentos aos olhos, mas de velocidade inimaginável, visto que cruzam os céus. Desenhava. Com uma vela acesa, dançante, ela derretia a ponta de um giz de cera amarelo e encostava no vidro, no lugar em que uma estrela estava brilhando. Fazia o mesmo com o giz branco na lua, com o giz verde para Vênus, a estrela d'alva. Ao final de cada semana limpava o vidro e começa a desenhar tudo de novo. Às vezes, ligava com linhas finas estrelas e planetas, criava constelações. Uma parecia um gato, outra, uma xícara, um menino... E das imagens inventava histórias.

Naquela noite, ao ligar as estrelas viu um pássaro feito com elas. Imaginou uma história onde o espaço sideral era uma árvore infinita e cada planeta um fruto colorido. Ali era a luz das estrelas que guiava todos os seres gigantes que habitavam a copa da árvore-céu. Seu pássaro, feito de astros, voava e bicava os planetas como se fossem goiabas doces, ou tangerinas cheias de suco. Imaginando, riu. Quis como nunca ser dona do pássaro que imaginara. Depois que desenhou o grande pássaro, abriu a janela e foi dormir. Sonhou.

Em seu sonho, o vidro não tinha nenhum de seus desenhos, entretanto, no parapeito de madeira da janela havia pousado um passarinho. Encantada com a beleza do animal, perguntou se ele bicaria nosso mundo de fruto azul, mas antes que o pássaro pudesse responder ela acordou. Levantou-se, esfregou os olhos e foi correndo para janela. Lá, em cima da madeira, não havia o pássaro de seu sonho, mas havia uma semente.

Na manhã seguinte Antônia plantou a semente em seu quintal, e a semente a ensinou, durante muitos anos, que para ser dona dos pássaros é preciso plantar árvores. Árvores da semente da liberdade. Como as árvores do céu.

(Ilustração: Xilogravura de Ialê Cardoso)

quarta-feira, dezembro 24, 2008

O Concreto do Som

Fervem ruídos na metrópoloe.


Em ruas pequenas
motocicletas estouradas
anunciam a pressa.

Amassadas.

Na funilaria
os compressores assopram
e a mangueira chia
Feito uma serpente vulcanizada.

São Paulo tem árvores...
E pássaros que gritam com tudo isso...

E pessoas silenciosas,
quietas, incapazes de dizer frente ao som de tudo.

A luz não tem som.
Hoje faz sol.

Mas a luz e o calor mudam a impressão de todos os sons,
sem mudá-los.

Há saudade no barulho que esmorece quando os caminhões se afastam...

Uma casa velha com um jardim. Roseira vermelha.

Silêncio?

Não.

As plantas fazem um barulho mágico enquanto crescem.
E a sua seiva corre ao som de seu pulso, e seu pulso bate,
feito um coração surdo e verde.

Outro dia, noutra casa,
Um violeiro violava seu violão
com os dedos.

Num ato ingênuo do campo.
Em plena metrópole.

E o vizinho do violeiro trabalhava.
E martelava cadências.

E o vizinho do vizinho esguichava com mangueira,
lavando seu carro no portão de casa. Ato de pequeno mundo.

O mundo dele é do tamanho de uma sala e uma família.
E um quintal.

Em outra casa, eco de vozes e uma escada de concreto. Que desce. Muito.
Nela um eco sobe.

Eco no concreto
som concreto
em parede volúvel de areia que se ouve nos dedos.

Pixação.

Uma borboleta amarela passa no cenário de um muro fudido e pixado.

Silêncio.

O som das asas de uma borboleta.
Caminhão.
Quem será capaz de ouví-la?

Meus passos.
Não os ouço.
Os ouço.

Um ônibus passa...
Rangendo seu chacoalhar
O som do metal no metal
fala sobre as coisas do ferro e seu óxido.

Um operário amassa papel,
e o papel fala da sua ânsia de ser escrito,
mesmo sendo de embalagem industrial.

E o freio do pequeno carro assovia.
Ópera de lona.

Não há metafísica na pastilha.
Não há metafísica no meu poema.

A Kombi balbucia uma canção que faz chover milhares de ônibus laranja...

Sangue de diesel
Música escura,
Um grito mudo de preso,

Som de bueiro.
Som da boca do bueiro.

Submundo de sussuros 
ocultos...

Sem brilho e luar,
um inferno de lodo,
do bueiro sai uma voz:

"Eu te recebo e te escancaro"

E os bancos financeiros
e sua alegria numérica,
estéril, alegria calculada em equações.

Bolsa de valores. E seus gritos desesperados,
sua vaidade e ambição,
seu som taquicardíaco,
monitores de cristal líquido...
Cristal líquido, sangue do dinheiro,

Dai-vos a droga dormente dos alaúdes noturnos!

Dai-vos o canto das cascatas artificiais?
(não há perguntas em uma oração)

E as igrejas cinzas

e a beleza dos sinos de bronze,
Rugido de um espírito forjado no metal.

terça-feira, novembro 25, 2008

Poema sobre o som do Mar

No cheiro do mar sinto o sal da liberdade.
Perfume de água com essência de pedra.

O gosto do sangue transparente do mundo.

e seu som,
vasto como um trovão e tranqüilo como um cochicho,
Forte, e mais leve que a sombra de uma concha,
Mais leve que a sombra da espuma,
mais leve que a sombra da luz.

Som que acalma, e nunca descansa,
Som mínimo, bolhas, pequenas coisas,
detalhes de água na areia,

Som do mar. Grande.
Imenso, impensável,
Incogniscível.

Há cores no som do mar.
Há branco e verde nas ondas e seus gritos para as pedras,
água que desafia as pedras,
desde o início de tudo,

águas suaves, que moeram pedras através do tempo,
Formando toda terra e areia do mundo,

sólido.
Grão.

E há vida no som do mar,
Milhares de seres em uma gota,
minúscula, microscópica, infinita.

Há um oceano por gota de oceano.

E peixes enormes, vagarosos, deslizantes,
despreocupados. E seu canto.

Canto de peixe, Voz do silêncio, do som na água do som do mar.

Do som do mar que possui os mistérios do vento,
vento do qual nunca sabemos sobre seu futuro,
seu destino incerto, livre a cada segundo,
ágil,


onde uma pena de albatroz, 
se solta. E vai livre de intensão.

Vento que move a superfície da água,
Em noites claras,
espelho falso, onde o céu se olha,
e vê matizes de mil cores, orla noturna,
Espelho das estrelas, luas e planetas,

Espelho do sol, força impensável,
e sua luz, fogo que anda através do infinito
e clarifica a água,
dá vida às cidades dos corais,

Algas que dançam um balé ao dia,
dançam com a serenidade das profundezas iluminadas,

Ah! som do mar, música que nunca envelhece,
música que nunca se repete,
há milhões de anos compondo,
música que nunca pára,
que me dá fôlego para viver,

Som do Mar.

Canto que nunca morrerá,
Som do mar, voz de um deus de vida eterna.

Que segredos o mar te conta?

quarta-feira, outubro 22, 2008

Uma mulher de azul

… She got a watch way... Tocava com um mínimo chiado o rádio na guarita de Argenor, eram três horas da manhã de uma escura madrugada de inverno. Argenor era guarda noturno, trajava uma japona de nylon rasgada, um sapato de couro preto e calças bem vincadas. A camisa branca de botões era seu uniforme. Sempre barbeado e com pente no bolso, ele sonhava com as mulheres das revistas enquanto ouvia aquela canção distante, de outro tempo e outro lugar. Mas a melancolia era presente e tocada num blues de voz e violão. Pensava na vida. Tinha uma cabeça simples. Sem grandes complicações existenciais, ou questionamento sobre a natureza das coisas. Era tão próximo dessa natureza que não lhe acometiam tais mistérios existenciais. Até aquela noite em que escutou passos.

Passos de mulher, de salto fino batendo no asfalto. A lâmpada da rua estava fraca por demais e sua lanterna sem pilhas. Levantou um palmo do banquinho e espiou com pescoço torcido pra fora da guarita. Sim era uma mulher. O vulto já parecia inconfundível. Vestia azul. Um azul profundo... Argenor ficou apreensivo. Quem seria ela? O que fazia uma mulher bonita andando sozinha de salto na alta madrugada? Ela foi se aproximando. De frente para guarita ela bate no vidro...

- O senhor pode abrir a porta um minuto?
- Pois não, disse o vigia...

Assim que abriu a porta Argenor viu uma mulher que não era feia ou bonita, era uma mulher diferente. E tinha charme, isso tinha. Parecia ser uma mulher pobre de hábitos refinados. Nunca tinha visto isso. E havia tranqüilidade no seu olhar. De uma força antiga, com certa nostalgia de épocas passadas. Parecia com as mulheres do cinema em preto e branco. Seus cachos eram brilhantes e se destacavam com a iluminação do poste. Ela sorriu para ele tirou um cigarro do bolso e olhou nos olhos de Argenor. Ele pegou a caixinha de fósforos que usava para acender velas em noites de falta de luz ou pilha na lanterna e riscou a pólvora do palito. No rádio a música estava baixinha, quase acabando, de modo que o fósforo cantara alto suas línguas de fogo no ar. Ela encostou seu dedo na mão de Argenor e conduziu-a até o cigarro. O fumo ganhou calor, incandesceu-se, e ela depois da tragada, perguntou:

- O que é o mal para você?
- O mal? O mal é a mentira...
- Não. Não é...
- Então o que é?
- É só aquilo que seu coração ainda não sabe...
- Coração sabe?
- Sabe.
- E como é saber de coração?
- É saber sem ter que perguntar...

Deu mais uma tragada. O rádio começou um rock gostoso, de baile...

- Aumenta o rádio... Ela pediu docemente.

Ele aumentou.

- Aumenta mais...

Ele aumentou mais um pouquinho, com receio de acordar alguém da rua.

- Vem dançar, ela disse jogando e esmagando o meio cigarro no chão...

Argenor sentiu um frio pelo corpo. Começou a tremer. Criou coragem e levantou. Ela estava bonita naquele vestido azul escuro. Era mais velha do que tinha imaginado, mas não menos bela.

Começaram a dançar, ela segura. Ele tímido, sem saber como abraçá-la.

- Qual é seu medo?
- Não temo nada. Disse Argenor mentindo.
- Por que sua mão está tão fria nas minhas costas?
- Esse é o frio da noite dona... Dona da noite... (riu). Quer ver o pôr-do-sol?
- Não homem. Não vivo na luz do sol...
- Quem é você? Que nunca vi pessoa tão segura de si?!
- Sou a noite que conversa com todos os homens... (riu) A noite que existe dentro de você e que você nunca consegue enxergar... Essa sua noite que minha coragem escancara (risos).
- Pra mim você é um mistério, mas estou gostando de dançar...
- Sim eu sou o mistério.
- Como você se chama?
- Pra que você quer saber?
- Pra saber... Ué...
- Não é melhor ficar sem saber?
- Por quê?
- Fica mais bonito...
- Vamos ver o pôr-do-sol lá no meu barraco.
- Não vou. Não gosto de luz. Fico feia na luz. Minha beleza é outra.

A música no rádio acabou e o locutor começou a falar. Ela soltou o corpo de Argenor e deixou um rastro de perfume que Argenor achou gostoso... Andou até a guarita, acendeu mais um cigarro e foi andando pelo caminho que chegou. Foi dormir. Na próxima noite teria muitos homens pra atender. Argenor ficou certo de que nunca teria uma mulher tão segura de si como aquela. Não era uma mulher comum. Nenhuma mulher do mundo teria a coragem e a segurança de tirar um homem pobre e feio pra dançar às três horas da manhã. E olhá-lo no olho como se ele fosse... Pequenino... Era uma diva da noite, uma divindade da lua...

quinta-feira, outubro 16, 2008

Marmita


Quando se trata de ouvir a conversa dos outros em um ônibus, deve-se logo escolher um dos três tipos de prosa que a condução embala entre o acelerar e o frear. A prosa da frente, exercida antes da roleta, com histórias dos políticos que apenas os antigos conheceram. As conversas do meio, que são entre mulheres que falam e falam, sempre preocupadas com o afeto das pessoas próximas. Vizinhos desquitando-se, cunhado apaixonado, sobrinha grávida na casa do pai... E finalmente as do fundão, entre homens que disputam a melhor história com uma economia de palavras repleta de adjetivos que as tornam mais reais do que são.

Outro dia mesmo, sentei no fundo do ônibus e me deparei com uma prosa... Não que estivesse à caça de ouvir sobre a vida alheia, mas não há quem resista perder um ponto se a história for única. Tal foi o caso desta sorte que ouvi em plena Faria Lima numa quinta-feira. Era uma voz nordestina, lépida, acesa:

- Mas pois é homem! (batendo as mãos nas pernas) Eu te juro! Era pra nóis tá fazendo festa neste mesmo minuto! Eu não enriquei porque Deus não quis! Foi por pouco é que eu não ganho muito!

O seu amigo não se conformava...

- Chico! Como é que você deu vaga na fila pro outro comprar a loteria no seu lugar! E você viu ele ficar rico na sua frente? E no seu lugar!
- Mas oqueque eu ia fazer? Me diga! A fila tava grande, e chegou na minha vez...
- E tu não comprô?
- Nada! Fui pegar o dinheiro no bolso pra comprar a raspadinha, e não achava os troco!
- Ah Meu Deus!
- Falei pro homem que tava atrás de mim... Pode passar que eu não tô achando...
- Aí foi ele que achou...
- Foi! Foi na minha frente Bastião. Na minha frente! Olha só. Logo em seguida que ele comprou a cartelinha, que era a do meu lugar na fila, eu comprei a que era a dele, e a gente foi raspar no balcãozinho que tinha do lado. Bastião do céu! O homem começou a tremer e ganhou cem mil. Cem mil debaixo da minha vista! Bem ali!

O ônibus parava em cada farol e a esta altura não havia um só homem que não estivesse pescando na conversa deles. De repente o que estava sentado na frente dos dois, com uma japona cinza, parecia ser guarda noturno, torceu o pescoço e palpitou:

- Ó, o senhor me desculpe, mas se o senhor fez uma gentileza e ele ficou rico por causa da sua educação ele tinha que dividir o dinheiro com o senhor...

Foi o bastante. Mais três entraram na conversa, dizendo que se tratava da mais pura verdade. Um deles disse que era o caso de se pagar pelo menos vinte mil. Menos do que isso, eles concordavam, seria falta de polimento por parte do sortudo. Depois de terem dado preço para a gentileza, perguntaram pro tal de Chico o que ele faria com a dinheirama. Não deu nem tempo para ele responder que já começaram a gastar o dinheiro por conta...

- Eu comprava a casa que eu to construindo na praia pro meu patrão e ia morar lá o resto da vida! - Disse sorrindo um pedreiro preto com cabelos brancos e beiço estourado de sol...
- Eu não... Completou do outro lado o magricela. Comprava dois ônibus usados e fazia clandestino, dá mais de dez mil por mês!

Tinha um senhor gordo de narigão, boina e grossa sobrancelha. Vestia um pulôver azul de lã furada... Ficava repetindo baixinho para si mesmo, o sotaque era italiano:

- Cem milllllllll?! Puxa, cem millllllllll?! Mas cem milllllll?!

Era tanto para aquele desempregado que a quantia chegava a ser ingastável. Até eu me peguei torrando a quase fortuna do tal Francisco... Eram duas da tarde, estava voltando pro escritório e ainda não tinha almoçado... Morto de fome, claro, sonhei acordado em gastar uma pequena parte da dinheirama alheia numa boa mesa de São Paulo... Quando me vi provando uma refeição esplendorosa, a cerveja gelada e o tutu-de-feijão levemente apimentado, arroz branquinho perfumado de alho, babata frita e bife macio, acordei e reparei numa marmita, segura pela mão que estava preste a descer da condução. De alumínio, amarrada com uma tira de câmara de bicicleta para não abrir no banho-maria. Imaginei o que poderia ter dentro... Arroz e salsicha fria? Concluí... Não seria nada mal se fosse esse que tivesse ganhado o prêmio no lugar do Chico...

terça-feira, outubro 14, 2008

Rico?

A reportagem começa assim...

Ministério recebe doação de R$ 11 mi de empresário multado por crimes ambientais
(Fonte: UOL / Da Agência Brasil Em Brasília)

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, e o empresário Eike Batista, do grupo EBX, assinaram nesta terça-feira (14) um acordo de cooperação de R$ 11,4 milhões para investimentos nos parques nacionais de Fernando de Noronha (PE), dos Lençóis Maranhenses (MA) e do Pantanal Mato-grossensse (MT). O montante da doação é menos da metade do valor devido pela empresa em multas por crimes ambientais, como uso de carvão vegetal sem certificação, produzido com madeira de desmatamento...

Perante uma hipocrisia desse tamanho, repito umas poucas palavras...

A Terra tem o suficiente para a necessidade de todos, mas não para a ganância de uns poucos (Mahatma Ghandi)

segunda-feira, outubro 13, 2008

O Escrivão

A delegacia está vazia. Nas cadeiras antigas, de madeira escura, lascada, apenas restos de preocupação se deixam ler. Numa, hoje à tarde, um jovem eletricista, tendo tido o tão sonhado carro roubado antes mesmo de segurá-lo, riscou à chave o nome da nova namorada. Talvez arriscasse perdê-la sem passear com ela nos fins de semana. Noutra, leio um 'DESGRAÇADO'. Escrito fundo, com ódio, nervos firmes e dedos calcantes... Era o ódio de quem perdeu alguém por facadas... Vi a moça escrever, o delegado também viu... Ninguém teve coragem de impedi-la, tamanho era o seu sofrimento. Perdeu filho. Outras marcas são zombeteiras, de pixadores que no descuido do policial, durante o café do sargento, ou numa ida ao banheiro, metem um desenho ou assinatura, feito com pincel atômico. Toda delegacia tem no ar um cinza invisível, e quando cai o movimento, ele simplesmente se destaca. As lâmpadas de mercúrio são trêmulas ao som na energia querendo passar, feito mosca na janela. E eu escrevo. Escrevo a merda da vida na vida das pessoas. Outro dia mesmo, tive que marcar o depoimento de uma empregada que roubara o filho da patroa. Seria presa por seqüestro. Sinceramente, a empregada roubara por dó, tamanho era o descaso da patroa com a filha. Deixava a criança com a empregada, e nos dias que a empregada estava de folga, deixava a criança no berço chorando. Segundo a empregada a patroa era da vida, batia na criança, levava homem em casa... Dois, três por noite... Azar da criança. Seqüestro é seqüestro. Agora, a lavadeira vai é trabalhar de lavadeira no presídio feminino. E quando as vizinhas souberem o que ela fez... Seqüestrar criança... Vai sofrer inda mais. Sei lá... Até procuro ver beleza na maldade das pessoas, senão enlouqueço. É tanta sacanagem o dia inteiro que duvido de meus filhos, de minha mulher, dos meus amigos. Duvido de todo o mundo, tamanha é a maldade que existe no mundo. Às vezes fico pensando se existe um lugar onde se trabalhe vendo tudo que as pessoas tem de bom... Duvido. Este lugar não existe. Imagina, poder relatar o quão bacana um vizinho foi com outro num incêndio, como a uma mulher salvou o marido de uma armação em família, como um cara jurado de morte foi perdoado a troco de nada. Sair de casa para ir dar queixa da bondade... Em vez de pena seriam prêmios, em vez de cela, férias... Seria cada história de chorar... Porque aqui, ninguém chora, aqui a gente ri. Ri porque é foda de agüentar sem rir. Sem rir, tirar barato do tarado e dar umas porradas nele, sem perguntar pra puta se ela já aprendeu a chupar pinto, sem prender a mão do ladrão de toca fita na porta da viatura, não dá. O povo não agüenta. Se não tiver este tipo de piada gambé sai matando, não extravaza, não se alivia e sai deitando. Tem que fazer piada e brincadeira de mau gosto. Tem gente que chama de tortura. Pra mim é piada, só sacanagem... Tortura é ter que viver imerso na desgraça, na injustiça. Isso é foda! Penso há anos o que é justiça... Concluí que justiça é quando todo mundo tem o que merece. Difícil é colocar os pesos certos em cada prato da balança. Se os jornais publicassem isso eu seria preso. Tudo bem... É errado, eu sei, mas é assim. Fazer o que? Mudar? Eu queria que o jornalista viesse aqui e mudasse para mim, porque eu tento mudar há trinta e cinco anos e não consigo. Falar a verdade neste mundo também é crime, principalmente quando a verdade é uma merda. Quer mais que aquele louco que ia comprar pão pelado na Vila Anastácio, e depois de detido e vestido, já perdoado pelo delegado, abaixou as calças na sala de espera do distrito e gritou: ''Me desculpa delegado eu nasci assim!''. Encanamos o cara na hora. Não dava para perder a moral na frente da malandragem. Tinha bandido chorando de rir. Prendemos o louco que passou uma semana gritando na cela que queria andar pelado. Mandamos pro manicômio... Fica uma semana, tomas uns choques, depois sai... Deve estar comprando pão pelado na Vila Sônia. Ele disse a verdade, mostrou a verdade e se fodeu. Se mentisse tava bem. Como um cara que a gente está para pegar faz tempo, que falsifica cheque. O cara fala bem demais. Responde sem responder, acusa sem acusar, se esquiva... Escorrega como verme. Esse nunca vai ser preso, e faz mal para o mundo. Ferra mais de cem por mês. Sabe, minha vida de escrivão de polícia não é fácil... Minha vida poderia ser diferente... Eu podia escrever até roteiro de filme pornô... Minha mulher ia ficar brava comigo, mas acho que me dava bem... Ou mesmo histórias de amor bem babacas, de gente feliz que toma coca-cola com pizza, e assiste filme com o cachorro na sala. Eu seria feliz. Qualquer coisa menos isso de ter que detalhar pauladas, tiros em execuções. Há trinta e cinco anos... Juro, não dá mais. Como dizia o delegado Adamasceno é muita merda pro meu puleiro...

''E COMO VOCÊ APONTOU O CANO NA CABEÇA DO CARA? PELA TESTA OU PELA NUCA? E A PORRA DO SANGUE VOOU EM QUE DIREÇÃO PARA VOCE TER SE SUJADO DESSE JEITO? TÁ ENCOBRINDO O PATRÃO PORQUE JÁ TÁ ENCANADO E É FUGITIVO NÉ SEU MERDA! TEM TRINTA ANOS NAS COSTAS E QUER PEGAR MAIS VINTE PRA PROTEGER O CHEFE! Escreve aí escrivão:''

''Joselino Armando Freitas, vulgo GATINHO...'' Juro que não agüento. Os jornais não colaboram em nada. É só defundo e bandido rindo da nossa cara lá de Miami. Hoje eu sou velho, e as coisas mudaram muito. Quando eu estudava no centro, há trinta e cinco anos atrás, os crimes tinham motivos. Honra, fortuna, vingança. Semana passada um cara fugindo da polícia deu um tiro num taxista para roubar o táxi. Poderia só ter tirado o cara de dentro do carro. Não. Meteu bronca mesmo. Apagou o velho e fugiu. Foda-se o velho. A coisa vale mais que o cara que faz a coisa. Só sei que enquanto a gente não descobrir que coisa é ess...

''ÔÔÔÔÔ... ESCRIVÂO! PARA DE GASTAR PAPEL DO ESTADO QUE CHEGOU MAIS UM FILHO DA PUTA PRA CONTAR UMA HISTÓRINHA...''

quinta-feira, outubro 09, 2008

Um pequeno mito

Criança é a libertação da liberdade
é a coragem inocente em ser o que é
voar à toa com os braços em asa
e chegar sujo de alegria em casa.

No travesseiro desejar mais que tudo o amanhã
cheio de praia, de pipa, de núvens vivas...
Porque o mundo é tão interessante
e curioso, e secreto, e mágico, tão inesperadamente bonito,
que antes só pode ter sido imaginado por uma criança.

Ária do pintor de portões

Quantos prédios se equilibram, querosene,
latas de metal, mas e o milharal?

Correio, cartas, milhões de janelas,
será que chegarão a elas?

Ponte incerta, tarde fria e um tarólogo que pinta portões na Bela Vista...

Seu canto é cheio de idade,
velho canto da África, voz da cidade.

Ondas de ferro, grilhões do espaço,
sopro do homem que colore o aço.

E o pintor que amorena o Sul,
conversa com a tinta,
cantando enquanto pinta
num vento azul...

sábado, outubro 04, 2008

Espaço

O universo é infinito porque não há limitação para a existência do espaço.

Um ser só

Quando eu era pequeno
nada sabia
nem pensava.

Hoje penso que a solidão
pode ser próxima da morte.

Mas não é a liberdade um ser só?

Sonho 1

Sonhei que estava deitado no colo do meu inimigo, chorando de alegria por ter vencido a loucura.

sábado, agosto 30, 2008

Frio de Agosto



Há um telhado no qual chove.

E na chuva que nele chove
Não há água que nos console.

Cinza de água cai...

O dia de ontem foi frio
E a réstia do frio de ontem
Hoje se mantém.
Quais as notas de um céu tímido e bravio.

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terça-feira, agosto 12, 2008

Lugares

Sinto saudades de lugares que nunca fui

Hong Kong com seus neons alucinados sobre a baía de mar
Madagascar e suas noites doces com estrelas africanas
Teerã e suas águas geométricas sobre pedras.

O mundo todo enche-me de saudade
numa ânsia de andar por sobre o globo
com a liberdade que um menino passeia num jardim.

A aurora boreal luminescente nos céus do Ártico
O suco doce das frutas de Belém do Pará
A moleza da Bahia com suas moquecas picantes
E claro, a cerveja de um dia de verão em Düsseldorf.

Áustria, Viena e suas estátuas de ouro,

Estive em lugares que não estive.
E não estive em lugares que estive.

Resta saber onde estou...

São Paulo, sua metrópole maluca
Que lugar é você se você é todo lugar?

Tenho saudades do vazio dos lugares que são.

Pois o que tudo é a nada pertence
E doce é seu sonho de estar.

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sexta-feira, agosto 01, 2008

Estrada do Sol

Sim é de manhã.

Há a estrada do sol. Novamente a ser seguida. Choveu durante a madrugada inteira... Mas a força dos braços dourados arrastou para longe os cúmulus escuros, cúmulos de azul cobalto e branco e preto... Cores de tinta óleo.

Mas a manhã é de água clara e sol, sol sol em todos os lugares...

Nas folhas há sol.
No ar há cheiro de sol.
Na terra o sol faz vida. E o marrom ganha brilhos irreais.
Que nasça o dia. Nasça dessa mesma terra e deste mesmo céu.

A vida é a junção da terra e do céu.

Sempre.


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Saudade

É como se um prego enferrujado morasse no meu coração pulsante.

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Crepúsculo


O dia cansado do seu dia de hoje,
Boceja ventos violetas do crepúsculo...

Sonos estelares, elas pestanejam!
O firmamento é a maior de todas as coisas que Deus nos permitiu ver,
ainda que o Deus de qualquer homem não seja do seu tamanho...

É o que chamamos de universo!Ele está lá, é só olhar...

Seus atóis de fogo verde...
E tudo se mexe é vivo!
O universo é tão vivo quanto eu.

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